Ele esperava o tempo passar. Assentado em um banco, decidiu iniciar a leitura de um livro, enquanto não desse a hora para a sessão de cinema. Antes de iniciar a leitura, entretanto, seus olhos viram e ele não acreditou: era ela. Apenas um pouco mais velha, uns três ou quatro anos, mas era, sem sombra de dúvidas, ela.
Ele sabia que não conseguiria olhar para os olhos dela outra vez, que não precisaria, sequer, olhar para ela, caso não quisesse. Não queria, não podia olhar para ela outra vez. Não para ela. Logo ela que só olhou para si, que se afogou em outros braços, enquanto era ainda dono de seus abraços. Não queria, não podia. Seu olhar, entretanto, não resistiu.
Olhou-a. Mais que olhou, observou. Ela continuava linda, da maneira como se lembrava. Os cabelos quase negros , escorridos, emolduravam-lhe o rosto e caíam, displicentemente, sobre seus olhos castanhos, quase verdes. Vestia a mesma camiseta listrada de branco e preto, aquela do dia em que se beijaram nos lábios pela primeira vez. Era linda, por Deus, como era linda. Ainda não tinha perdido a encantadora mania de mordiscar os lábios um pouco antes de sorrir. E sorria. E era linda, resplandecente. Resplandescência.
E ele não acreditava: era ela. Em todos aqueles anos, pensava ele, no que diria se pudesse, se quisesse, se insistisse em encontrá-la. Só ele saberia dizer quantos discursos ensaiou, quantas se posicionou diante do espelho e disparou sua mágoa contra ela. Sabia o que diria e como diria. Vê-la assim tão de repente, em uma tarde vazia de domingo em um shopping, entretanto, o desarmou.
Estava ali, sozinha, observando uma vitrine. Ocasionalmente, olhava para sua imagem refletida e ajeitava a franja. Ele ficou sem saber se a cumprimentava – e interpretava o papel de uma pessoa educada e bem resolvida - ou não se fingia que não havia visto ninguém especial e lia seu livro – deixando as coisas como elas deveriam estar. Ficou ali entre o sim e o não, entre a razão e emoção. Ele estava, sem sombra de dúvidas, emocionado.
Decidiu cumprimentá-la. Levantou-se, ajeitou os óculos de grau, colocou o livro dentro da mochila e dirigiu-se a ela. Antes, entretanto, teve que inflar o peito com toda a coragem que conseguiu encontrar. Aqueles dez metros que os separavam pareciam uma maratona emocional - e ele não fazia a menor ideia se estava preparado para ela.
Encostou a mão sobre seu ombro. Ela pareceu meio surpresa. Talvez pensasse que ele havia morrido ou simplesmente desaparecido no mundo - desde o dia que se falaram pela última vez, anos atrás, ele fazia questão de não dar mais notícias a ela. Ele sorriu, nervosamente.
Preponderou no ar um certo silêncio constrangedor. Provavelmente, ela pensava em algum assunto em comum, para iniciar uma conversa com alguma cordialidade . Ele, por sua vez, só conseguia pensar em como ela era linda. Ele iniciou uma conversa sobre qualquer banalidade, como desconhecidos fazem. As palavras que ele ensaiou, por tanto tempo, não saíram.
Ela disse que precisava ir para casa, deu um adeus. Passou por ele, saiu apressada. Ele ainda pôde ver, quando se virou, para olhá-la mais uma vez, uma imagem que evitou, por anos. Ela corria para os braços de outro. E o outro, feliz, feliz, a rodopiava pelo salão. Uma cena bonita e, particularmente, deprimente. Provavelmente, deve ter perguntado a ela quem era aquele cara esquisitão com quem conversava. Ela deve ter respondido que não era ninguém em especial, perguntava apenas sobre as horas.
Deram um beijo e saíram abraçados. Ela olhou, uma última vez, para trás. Mordiscou os lábios, sorriu e desferiu uma piscadela quase fatal. Sentiu-se animado. A verdade, pensou ele, é que há mágoas que o tempo não apaga. E há sentimentos que nem a maior das mágoas consegue dar fim. Ela, concluiu, era realmente linda. E ele um perfeito idiota.
Ele sabia que não conseguiria olhar para os olhos dela outra vez, que não precisaria, sequer, olhar para ela, caso não quisesse. Não queria, não podia olhar para ela outra vez. Não para ela. Logo ela que só olhou para si, que se afogou em outros braços, enquanto era ainda dono de seus abraços. Não queria, não podia. Seu olhar, entretanto, não resistiu.
Olhou-a. Mais que olhou, observou. Ela continuava linda, da maneira como se lembrava. Os cabelos quase negros , escorridos, emolduravam-lhe o rosto e caíam, displicentemente, sobre seus olhos castanhos, quase verdes. Vestia a mesma camiseta listrada de branco e preto, aquela do dia em que se beijaram nos lábios pela primeira vez. Era linda, por Deus, como era linda. Ainda não tinha perdido a encantadora mania de mordiscar os lábios um pouco antes de sorrir. E sorria. E era linda, resplandecente. Resplandescência.
E ele não acreditava: era ela. Em todos aqueles anos, pensava ele, no que diria se pudesse, se quisesse, se insistisse em encontrá-la. Só ele saberia dizer quantos discursos ensaiou, quantas se posicionou diante do espelho e disparou sua mágoa contra ela. Sabia o que diria e como diria. Vê-la assim tão de repente, em uma tarde vazia de domingo em um shopping, entretanto, o desarmou.
Estava ali, sozinha, observando uma vitrine. Ocasionalmente, olhava para sua imagem refletida e ajeitava a franja. Ele ficou sem saber se a cumprimentava – e interpretava o papel de uma pessoa educada e bem resolvida - ou não se fingia que não havia visto ninguém especial e lia seu livro – deixando as coisas como elas deveriam estar. Ficou ali entre o sim e o não, entre a razão e emoção. Ele estava, sem sombra de dúvidas, emocionado.
Decidiu cumprimentá-la. Levantou-se, ajeitou os óculos de grau, colocou o livro dentro da mochila e dirigiu-se a ela. Antes, entretanto, teve que inflar o peito com toda a coragem que conseguiu encontrar. Aqueles dez metros que os separavam pareciam uma maratona emocional - e ele não fazia a menor ideia se estava preparado para ela.
Encostou a mão sobre seu ombro. Ela pareceu meio surpresa. Talvez pensasse que ele havia morrido ou simplesmente desaparecido no mundo - desde o dia que se falaram pela última vez, anos atrás, ele fazia questão de não dar mais notícias a ela. Ele sorriu, nervosamente.
Preponderou no ar um certo silêncio constrangedor. Provavelmente, ela pensava em algum assunto em comum, para iniciar uma conversa com alguma cordialidade . Ele, por sua vez, só conseguia pensar em como ela era linda. Ele iniciou uma conversa sobre qualquer banalidade, como desconhecidos fazem. As palavras que ele ensaiou, por tanto tempo, não saíram.
Ela disse que precisava ir para casa, deu um adeus. Passou por ele, saiu apressada. Ele ainda pôde ver, quando se virou, para olhá-la mais uma vez, uma imagem que evitou, por anos. Ela corria para os braços de outro. E o outro, feliz, feliz, a rodopiava pelo salão. Uma cena bonita e, particularmente, deprimente. Provavelmente, deve ter perguntado a ela quem era aquele cara esquisitão com quem conversava. Ela deve ter respondido que não era ninguém em especial, perguntava apenas sobre as horas.
Deram um beijo e saíram abraçados. Ela olhou, uma última vez, para trás. Mordiscou os lábios, sorriu e desferiu uma piscadela quase fatal. Sentiu-se animado. A verdade, pensou ele, é que há mágoas que o tempo não apaga. E há sentimentos que nem a maior das mágoas consegue dar fim. Ela, concluiu, era realmente linda. E ele um perfeito idiota.
5 comentários:
Tadinho dele. Vontade de abraçar e levar pra casa.
*.*
eu tb fiquei com a mesma vontade...rs
Muito bacana. Acho que é um conto com a qual todo mundo se identifica, de certa forma.
Não sei se gostei (ou se entendi) bem a piscadela e o sorriso final da menina. Ainda assim, a última sentença ficou perfeita.
Raíssa, não deixe de escrever.... saudades de ler algo novo por aqui!!
obrigada pelo elogio! acho vc foda, e receber um elogio seu é muito legal, acredite!!! :D
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